O inferno são os haters

haters

Não é aprendizado nem característica do meio. Os abusos em comentários e posts são só a velha e conhecida falta de caráter de sempre.

Não é o anonimato ou a sensação de anonimato que nos leva a escrever coisas más e ruins. É justamente o contrário.

Ser maus e ruins nos comentários é um caminho para fugirmos do anonimato – nosso incentivo para expressar a ruindade nossa de forma que ela pareça sempre a ruindade dos outros.

É burrice querer usar o meio ou a tecnologia para desculpar a forma como utilizamos essas ferramentas.

As redes sociais não criaram os haters; só deram uma alcunha e uma ampla audiência aos maus caráter de sempre.

Nem toda pessoa sem caráter tem noção de sê-lo, mas os hater têm. Os haters sabem exatamente que, como pessoas – enquanto agem como hater -, são pouco mais que estrume em formato humanóide.

Não sei se é a baixa auto estima corrói o caráter ou se haters são uma junção de baixa auto estima e nenhum caráter, mas todo hater necessita desesperadamente de afirmação.

E o caminho mais clássico dos sem caráter para encontrar a auto-afirmação é rebaixando as demais pessoas ou grupos.

Se antes eles não utilizavam o papel ou outro meio para existir, deve-se simplesmente ao fato de que nada que inventamos até agora permitiu – como o fazem as redes sociais – que nossas ideias (ou falta delas) atingissem tanta gente ao mesmo tempo e por tanto tempo.

Os haters não são um fato novo. A internet é. Haters são os mau caráter de sempre se apropriando de um meio propício para exprimirem sua baixeza.

Maledicência é uma palavra antiga; também o são maldade, ruindade, desprezo, burrice, calúnia, mentira, covardia, desamor e insensatez – cada uma define exatamente o que são e como agem os haters.

Ou seja, a palavra haters já é uma desculpa que construímos para justificar a ploriferação da maldade na internet.

Associar haters a palavras como ‘fenômeno’, ‘social’e ‘nossos dias’ é uma só mais escamoteação da realidade.

Quando usamos a palavra ‘haters’, estamos sendo hipócritas e presunçosos.

E precisamos de tanta justificativa assim porque sabemos que ninguém, mesmo aqueles de nós que nos julgamos com caráter, estamos imunes a nos portarmos como haters.

Porque todos nos julgamos (aliás, temos certeza) bons e certos e racionais. O que as redes sociais se transformaram foi num espelho embaçado e distorcido da nossa auto imagem de bons-certos-racionais.

Por eu ser bom, estar certo, estar do lado certo e ser racional, toda ofensa que eu levar a cabo já está de antemão perdoada e justificada. Toda sentença que sair da tecla de um ser humano bom, certo, do lado certo e racional só exprimirá a realidade e a verdade.

E o que cria realidade e verdade nas redes sociais é o engajamento. Cada curtida sanciona nosso sentimento de sermos bons, certos, estarmos do lado certo e de agirmos racionalmente. Além de nos premiar, cada curtida é um incentivo a irmos um pouco mais além.

Antigamente nos ensinavam que se fôssemos maus, seríamos castigados. Hoje somos aplaudidos por sermos ruins, maus e desumanos.

Antigamente, gente ruim reunida era quadrilha ou bando; hoje são grupos de interesse.

Esse mecanismo de mudar os nomes das coisas, de quadrilha de malfeitores para grupo de interesse, por exemplo, não beneficia unicamente os tais haters.

Haters é uma nomeclatura que não diz nada, a não ser que é um fenômeno novo – posto que já vem em uma língua estrangeira.  Mas serve pra mudar o foco da questão do caráter para o da personagem: quem são os haters?

Ora, são as pessoas ruins e sem caráter com as quais sempre convivemos e cujas atitudes sempre combatemos, até agora – ou seja, muitas vezes nós mesmos.

Porque agora somos obrigados a conviver com a existência do nosso ‘lado negro’, não dá mais pra nos considerarmos gente de bem com a facilidade que fazíamos antes das redes sociais.

Não dá pra punir um sem caráter e usar esse exemplo para coibir o nosso mau caratismo e, principalmente, o mau caratismo dos outros.

Desde que a legião de seguidores curtidores despontou, não há mais sanção social que dê conta de esconder quem somos no íntimo.

Agora temos de conviver com o fato de que a bondade não é nata em nós. Que as pessoas de bem carregam esse adjetivo mais por marketing pessoal que por conexão com a realidade.

Então, pra escapar desse mal-estar, no lugar de combater a falta de caráter geral, criamos novas palavras, como haters, dentro da qual podemos esconder tudo que incomoda e nos expõem.

Daí usamos essa palavra contra os outros e enfim resolvemos o problema da responsabilidade e da culpa pela maldade que grassa em todos nós.

E podemos ser haters ao defender nossas boas causas ao mesmo tempo que acusamos os outros de serem haters.

E já podemos dizer, em paz, certos, do lado certo e com toda razoabilidade: o inferno são os outros haters.

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